No interior do Ceará, Itapajé desponta como um dos municípios de referência em produção de banana orgânica, com agricultores que adotam práticas mais sustentáveis e preservam parte de suas áreas para vegetação nativa. É um modelo de conexão entre produção rural, ecologia e futuro — embora o caminho ainda exija investimentos estruturantes.
Itapajé já é historicamente reconhecido como um importante produtor de banana no estado. Mas o que vem ganhando destaque nos últimos anos é a bananicultura orgânica cultivos livres de defensivos químicos, com adubação orgânica e compromisso ambiental.
Uma dissertação da UFC acompanhou 16 produtores ligados à Associação dos Fruticultores de Itapajé (AFMI), mapeando aspectos sociais, ambientais e econômicos da produção orgânica. O estudo constatou que a banana orgânica, dentro desse grupo, pode ser viável e gerar melhor retorno ajustado ao esforço e ao mercado.
A sustentabilidade em Itapajé vai além da ausência de agrotóxicos. Práticas como o uso da própria palhada da bananeira para adubar o solo e a introdução de inimigos naturais para controlar pragas são exemplos de uma agricultura que busca imitar a natureza. Técnicas de referência, como as utilizadas nas Ilhas Canárias, mostram o caminho:
Prática Benefício
Solo Biodiverso
Adição de matéria orgânica (restos de bananais, folhas) para enriquecer o solo e dificultar a propagação de doenças.
Irrigação por Gotejamento
Entrega de água diretamente na raiz, reduzindo drasticamente o desperdício, um recurso crucial no semiárido.
Controle Biológico
Uso de predadores naturais para controlar pragas, minimizando ou eliminando pesticidas.
É nesse contexto que a Cooperativa da Agricultura Familiar de Itapajé (Copita) ganha destaque, mostrando que a união faz a força. Com 48 cooperados, a organização, liderada por Marli Oliveira, já negocia a venda de seus produtos, incluindo a banana, para redes de supermercados da capital.
“Sinto-me feliz, principalmente porque vejo o cooperativismo dar autonomia às mulheres”, relata Marli. “A felicidade delas por terem o próprio dinheiro é indescritível”. A fala de Marli reforça que o modelo vai além da economia, gerando impacto social profundo.
Apesar das boas práticas, a produção de banana orgânica em Itapajé não está livre de percalços. Um dos maiores gargalos apontados pelos estudiosos é a infraestrutura precária, sobretudo no que tange ao escoamento da produção. Estradas rurais de difícil
trafegabilidade e deficientes meios de transporte encarecem custos e reduzem margem de lucro para os produtores.
Outro ponto sensível é a estrutura para pós-colheita — desde armazenamento protegido, classificação, embalagem até logística para mercados distantes. Para que a banana orgânica não perca em qualidade no caminho, precisa haver investimentos em centrais de beneficiamento, transporte refrigerado ou técnicas de conservação simples, mas eficazes.
Apesar dos obstáculos, ventos favoráveis sopram a favor dos produtores. O Fundo Estadual de Desenvolvimento da Agricultura Familiar (Fedaf), por exemplo, lançou um edital em 2025 que disponibiliza R$ 5 milhões em crédito para cadeias produtivas como a bananicultura. Esse recurso pode ser uma alavanca essencial para investimentos em infraestrutura e tecnologia.
Segundo João Nogueira, presidente da Organização das Cooperativas do Brasil (OCB) no Ceará, é fundamental que os produtores avancem na transformação da banana. “Em vez de vender apenas a fruta in natura, é preciso investir na fabricação do item final”,
defende. Para a banana, isso significa criar produtos com maior valor de mercado, como chips, farinhas e polpas, aumentando a renda e a estabilidade do negócio.
Para que Itapajé amplie seu protagonismo sustentável, algumas frentes merecem atenção imediata:
• Investimentos em infraestrutura rural — estradas, pontes, drenagem — para garantir acessos mais confiáveis.
• Unidades de beneficiamento local — centrais de classificação e armazenamento para preservar a qualidade do fruto.
• Apoio à certificação e marketing — estratégias de marca como “banana orgânica de Itapajé” para se diferenciar no mercado.
• Fortalecimento organizacional — consolidar a AFMI e cooperativas como a Copita para negociações coletivas e venda conjunta.
Com a recente criação da Autarquia do Meio Ambiente no município, Itapajé demonstra um compromisso institucional com a gestão ambiental, que pode ser uma grande aliada dos produtores orgânicos. O futuro da banana em Itapajé parece depender de uma equação que já se mostra viável: unir a força da agricultura familiar à inovação sustentável e ao apoio de políticas públicas eficazes.



